Após o refrão, os nossos comerciais

28 Set

Se Alegria, alegria passasse pelas mãos do produtor Adam Kluger, da americana Kluger Agency, Caetano Veloso teria enchido o bolso de dinheiro a cada gole de Coca-Cola da letra de sua música, lançada em 1967. Kluger representa, entre outros, Mariah Carey, Ne-Yo, Fall Out Boy, Ludacris e Pussycat Dolls. Tendo como gancho e-mails enviados por ele que acabaram vazando na rede, a revista americana Wired publicou em seu site, na semana passada, o artigo “Como empresas pagam artistas para incluir marcas nas letras de músicas”.

– É algo novo não só no Brasil, mas em todos os lugares. Temos as celebridades e eles têm o dinheiro – resume Adam Kluger, por telefone, de Los Angeles. – A única verdade é que, sim, escrevi um e-mail sondando empresas sobre a possibilidade de negócio entre marcas e músicas. Mas o artigo é 99% errado. Os artistas têm o poder: a vontade deles prevalece. Se não querem ser associados aos produtos vetam o negócio.

Kluger afirma que Doll domination, segundo CD das garotas do Pussycat Dolls, lançado esta semana, não contém faixas patrocinadas:

– Este disco não integra o projeto. Não posso citar quais artistas participam. Não que queira esconder.

Quando o caso cai no colo de pessoas lidadas à indústria fonográfica brasileira, a reação surpreende. O produtor Rick Bonadio, por exemplo, vê pioneirismo na ação de Kluger.

– Faria isso sem nenhum problema. Temos dois tipos de artistas. Os que são produtos de marketing e os que já vêm com uma carreira desenvolvida – compara Bonadio, que já trabalhou com “produtos” do primeiro gênero como ET & Rodolfo, Br’oz, Rouge e Dogão. – É algo feito para ser comercializado. No caso das Pussycat tudo é válido. Não lembro de nenhum caso do tipo. É uma grande idéia do cara. Claro que vão detonar…

Rock e MPB de fora

O produtor diz que não se deve fazer isso com nomes do rock ou da MPB. Entre eles, uma de suas mais recentes crias, a banda de pop punk paulistana NX Zero. Inserir produtos nas letras seria “deturpar o trabalho dos caras”.

– Nunca fizemos isso, até porque a parte de composição está mais com o artista. Não participamos do embrião da música – garante Alexandre Wesley, diretor de marketing da Warner. – É muito descarado incluir marcas. Até dá para fazer, mas com cuidado. Uma coisa é emprestar a imagem para o produto. Outra é citá-lo.

Wesley menciona vídeos do grupo canadense Simple Plan em que pares de tênis vão direto da tela da TV para os pés da garotada.

– Você pode usar merchandising no vídeo, de forma muito subliminar. Enquanto for assim, fica legal. Misturar música com uma referência objetiva faz com que o artista se perca – analisa.

O mineiro Fernando Brant, co-autor de canções com Milton Nascimento como Travessia e Nos bailes da vida, tem opinião semelhante a Wesley.

– Nada mais me assusta. Quando uma pessoa coloca um disco para vender está se vendendo também. Hoje buscam dinheiro em todo lugar – resigna-se o presidente da União Brasileira dos Compositores.

Na opinião de Brant, existem artistas que não perderiam ao participar “desse tipo de coisa”.

– Não tem nada de anormal um cara fazer uma citação e a marca usar isso depois. É legítimo. Faz parte da maneira com a qual lidamos com a cultura hoje em dia – diz Brant.

Coordenador do MBA de Varejo da Fundação Getúlio Vargas, Ulysses Reis, mesmo sem ter conhecimento da empreitada de Kluger, acerta ao diagnosticar que estilos estariam mais ligados à tendência.

– Esse tipo de onda deve ter relação com a música negra norte-americana produzida para os black yuppies, ou buppies – analisa Reis. – São negros que se sobressaem e gostam de hip hop. Não têm medo de gastar dinheiro, não poupam. E são suscetíveis a marcas.

O professor esquadrinha as conseqüências da novidade: rádios e TVs tenderiam a filtrar músicas com nomes de marca que conviveriam com a dificuldade de veiculação.

– Mesmo assim é uma grande idéia. Há um fator interessante de mercado. Para as marcas é ótimo: pagam os artistas, mas não pagam a veiculação – explica o professor.

Marco Camargo, jurado do programa Ídolos, da Record, e produtor musical, também opina:

– É oportunismo quando o artista utiliza a marca que não consome. Por outro lado, a arte é bela, mas é uma profissão.

Por Braulio Lorentz – publicada hoje no Caderno B

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