Em Curitiba, “há mais palcos do que bandas”

23 Nov

Cinco CDs lançados em quase 20 anos de carreira são os principais números do Relespública, trio curitibano de rock sem firulas, que acaba de despejar no mercado o disco Efeito moral. Para o show de lançamento, na noite da última quinta-feira, a banda escolheu o imponente Teatro Guaíra, em auditório com capacidade para pouco mais de 2 mil pessoas. As 14 novas músicas do grupo, no entanto, dizem menos sobre o rock da capital paranaense do que o discurso de Fábio Elias, vocalista, guitarrista e principal compositor do Relespública.

– Em 2002, quando voltamos a essa atual formação, éramos a única banda daqui que tocava música própria. Todo mundo preferia cover e ninguém queria os nossos shows – recorda Elias. – Nenhuma banda da nova safra tocou no Guaíra. É um marco para a história do rock daqui. A cena precisava de um evento como esse. É como um empurrão. Não queremos mudar de Curitiba para fazer sucesso, queremos fazer sucesso mudando Curitiba.

Decepcionados com festivais

O trio teve duas passagens pelo mainstream. Uma delas parece traumática, sobre a qual a banda fala (pouco) com certo ressentimento, gerado pela realização do disco O circo está armado, que saiu em 2000 pela Universal. Já com o MTV apresenta (2006), projeto da emissora musical que direciona os holofotes aos grupos ainda não conhecidos por sua audiência, a banda se diz mais do que satisfeita.

– Tudo mudou depois disso. Nossa agenda começou a aumentar e ganhamos um público novo. Percebemos uma resposta e amadurecemos muito como artistas. Foram anos intensos – diz Elias.

Após o especial, o grupo rodou por todos os “festivais imagináveis e possíveis”. Agora, porém, garantem que essa fase já passou.

– Pagar para tocar em festival não dá mais – resume Elias. – Já tocamos em quatro edições do Goiânia Noise, fizemos Rock in Rio, Abril Pro Rock. O último foi o Mada, em 2006. Estamos muito decepcionados com os festivais independentes do Brasil. E, se o Nando Reis é independente, ninguém me avisou.

A aproximação do grupo com o pop rock tocado nas trilhas de novela continua, já que Tudo que eu preciso tem participação de Samuel Rosa, do Skank. A idéia do convite veio da inspiração que Elias teve para compor a música: o penúltimo disco lançado pelo quarteto mineiro, Carrossel, de 2006.

– Fiquei com aquela sonoridade na cabeça, com a batida e a levada de violão do CD – lembra. – Comecei a dedilhar uns acordes e esboçar a letra. Telefonei para o Samuel e ele só perguntou: “Quando vamos gravar?”.

Depois, foi Rosa quem ligou:

– Ele estava em Porto Alegre e tinha ouvido a música na rádio. Ficou todo animado, por que ainda não tinha ouvido a versão final.

Mas o que o Skank tem que falta aos outros grupos do pop rock?

– Ele sabe se vender. Estão nas novelas por merecimento e são assumidamente pop. Eles pegam uma música do Gilberto Gil (Vamos fugir) e melhoram.

Efeito moral sai em CD e pen drive disponível para venda nas livrarias Fnac (R$ 35).

– Já lançamos em cassete, vinil, CD, DVD e agora pen drive. Mas não somos como a Ivete Sangalo, fizemos só 500.

A banda assina a produção, mas sondou um velho conhecido.

– Cogitamos o Rafael Ramos que já havia nos produzido – revela o baterista Emanuel Moon. – Mas estávamos com uma certa pressa e não pudemos esperá-lo. Ele disse que este ano a agenda dele estava impossível e sugeriu que nós mesmos produzíssemos o CD. Falou que já éramos “gatos escaldados”.

Além de bandas com mais tempo de estrada, como o próprio Relespública, Curitiba vê o surgimento de nomes que vão do power pop do Poléxia, ao rock que une viola caipira e rock inglês do Charme Chulo, e o som moderno à la Strokes e Franz Ferdinand feito pelo Sabonetes.

– Sinto que há 10 anos tínhamos que sair para tocar em outros lugares. Agora não – comemora Elias. – Hoje, fazemos mais shows na região Sul. Temos um público fiel. Temos mais palcos que bandas. São pelo menos 15 bares para tocarmos em Curitiba. Os grupos têm uma timidez curitibana de não querer botar a cara para bater. 



Por Braulio Lorentz – Publicado no Jornal do Brasil

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